15/12/2019

OS OLHOS TRISTES NO TEMPO

Quantas vezes!
Lembrando-me de ti, eu passava de propósito diante da tua vida. Via tua juventude indo embora e tu nunca sorrias.
“O que será que ela tem?” Pensava eu.
Outras vezes, passava pelo teu portão. Ora não te via, ora te via a varrer o quintal ou aguando as plantas. Mas nunca vira o teu sorriso. Não sabia se eras casada ou não. “Talvez não fosse feliz”; pensava eu.
Vi o tempo, amigo ou não, levando a tua idade. Enrugando-te e trazendo a neve aos teus cabelos. No sopro do vento, eu sentia estar no fim o meu amor por ti.
Minha esperança ao passar pela tua rua já era sem razão.
Certa manhã de Natal, cabisbaixo e triste, do meu portão olhava o movimento da rua. Alguns conhecidos e vizinhos passeavam pelas calçadas cumprimentando com acenos e falas.
— Feliz Natal! Eu desejava a todos.
Naquele dia meu coração pulou fora do peito. Finalmente papai Noel se lembrou do meu presente. Tu vieste descendo a minha rua, com os cabelos curtos de algodão e um sorriso alvo e alegre.
— Bom dia, feliz Natal! Ouvi tua voz me dizendo.
Naquele momento, o mais encantador da minha vida, percebi que tu querias estar ao meu lado. Tive um ímpeto de correr e abraçá-la. Porém me contive:
 “Tanto tempo a espera, para que correr agora?”
Hoje, passeamos de mãos dadas. Finalmente vejo florir teu antes apagado sorriso do passado; teus olhos brilham emocionados, cheios de vida.
 És a minha vida... Ah, a minha vida!

08/12/2019

SERESTA NO LUAR DE PRATA

Apaixonantes noites de serestas boemias na noite de lua cheia. Num luar branco e prata. A rua solitária, sua companhia é o sereno e um amigo violão, que traz pendurado junto ao corpo. Preso a um couro cintilante de estrelas prateadas. Anda pelo silêncio, noturno procurando uma janela aberta ou mesmo entreaberta e curiosa. No alto dos assobradados e antigos prédios da rua do Tesouro.

Procura as damas moças sonhadoras e amantes do romântico luar. Que esperam pelo momento mágico em ouvir os acordes de um violão dedilhado e a voz máscula do seresteiro cantor a seduzir-lhe a alma.
São emoções que guardam no coração, como um encanto. Um ritmo de paixão num prazer delicado. O boêmio espalha sua voz na noite dominando o prazer da emoção, canta causando êxtases nos corações femininos.

Uma noite prateada para a morena que pela janela entreaberta, mostra seu rosto meigo, colorido pela prata da lua. Sonhando com o amado que um dia partiu. Seus lábios assopram vislumbrante nuvem azulada da fumaça do tabaco que segura entre os dedos Dos seus olhos perdidos numa contemplação, escorre uma lágrima que para na ponta do queixo, como uma pérola da cor do luar.