03/03/2019

O RETRATO DE VILMA


Doída a dor que não acabou com o tempo. Uma terrível apatia fazia companhia a essa dor. Era uma dor de amor que só o tempo era o remédio para a cura

Ali na parede de um corredor caiado. Pendurado a um prego que enferrujou. Arrebentou-se ao chão. O porta-retratos onde a foto de Vilma morava, desbotada pelo tempo e umidade.

Há algum tempo atrás tentei me desfazer desse retrato. Não consegui. Ela ali sorrindo me maltratava me consumia. Dia após dia. Me acompanhava com os olhos, quando eu passava pelo corredor. Porém hoje: Qual não foi o meu espanto, não ver no canto, onde morava.. Seu olhar não vai mais me perseguir

Caíu! O prego enferrujou. Percebi minúsculas gotículas de sangue espirradas no vidro. Talvez respingos de pintura da moldura. Vai com Deus e boa sorte.


01/03/2019

ROMÂNTICOS CARNAVAIS

Lá vinham os cordões com a alegria do Carnaval. Dias românticos, fantasias, sonhos e sorrisos.

Eram três dias de folias, amores e danças. O importante era pular muito. Chacoalhar cantar e dançar. Fazer da alegria uma vida só.

Nasci e cresci com o Carnaval na porta de casa, onde o palco da festa eram ruas empoeiradas da Vila Esperança, onde nos anos 60, clubes e agremiações carnavalescas, botavam os blocos na rua todos os anos. Eu e meus irmãos éramos garotos das ruas poeirentas. Ficávamos na rua à beira das cercas de madeira e de onde tinham calçadas! Maravilhados pelas fantasias. As vezes moldávamos as nossas com jornais, papelão, cola e barbantes.

Índios, pierrôs palhaços e colombinas dos olhos pintados e sorrisos apaixonantes. Três dias de batalhas e chuvas de confete, coloridas cascatas de serpentinas que se desmanchavam em rococós. Os carros alegóricos eram caminhões e automóveis enfeitados. A rua Alvinópolis era o palco da folia.

No início o som das maracas e apitos chamavam a atenção para a abertura da folia. E o mundo da ilusão se abria. Os cordões. Gente de mãos dadas a dançar, os blocos esquentavam com os instrumentos da época fazendo barulho para valer. Era o povo na rua. O nosso povo sofrido e trabalhador. Dançando e cantando num coral de vozes afinadas. Você pensa que cachaça é água. Então abre alas que eu quero passar. Ôôôôô Aurora!!!!!

Assim iam os três dias de folia.

Depois vieram os carnavais de salão. Agora éramos jovens e namoradores, pulávamos muito nas matinés do Cine Candelária. Tiravam as poltronas da enorme sala de cinema, colocavam uma banda em cima do palco, aí eram cinco dias de folia. Começávamos a dançar na sexta e ia até na terça. Logo vieram brigas. drogas e bebidas. Por fim o mundo eletrônico tomou conta da nossa história. Tirou uma diversão espontânea e gratuita do povo. Para uma fábrica de dinheiro.

Agora a fábrica do carnaval é para inglês ver. Acabaram-se as ilusões e os sonhos da alegria.