04/01/2020

FOTOS ESMAECIDAS

 

Hoje encontrei fotos de nós dois que residiam no sótão do casarão de pedras. Onde meus pais moravam. Gastas pelo tempo numa cor sépia, já se fazem esmaecidas. Lembrei nossos banhos na banheira com o esmalte descascado. Teu corpo moreno queimado de sol, coberto pela espuma alva do sabonete cheiroso. Teus seios coloridos pela marca do biquíni às vezes boiavam, entremeados à espuma.
Ficávamos ali por horas nos afagando, nos beijando e ajustando nossas ferramentas de amor.
Quando nossos corpos clamavam o êxtase saiamos para o quarto. Deitávamos numa colcha de retalhos que se fazia linda, decorada pelo teu corpo nu. Encontrei-a, nesta manhã. Tão velha e cheia de traças que se desfez em farrapos. Como sinto meu coração agora.
Teu sorriso branco iluminava-se dentro da boca. O carmim nos teus lábios pareciam pétalas vermelhas se abrindo quando me chamavas de amor. Como você me levava à loucura!
Agora estou olhando todas as fotos, cada uma tem uma história. Cada uma me mostra um tempo, um momento. Revivendo tudo, me desmancho em vários devaneios. Meus olhos se enchem de água pelas saudades. Muitas foram os dias, que sonhei com teus olhos agasalhando a minha alma. Te sinto! És como um livro que leio todas as noites, como se tivesse lendo teu coração. Nossa! Como dói a tua ausência.

02/01/2020

CARTA UM AMOR DE OUTRA VIDA

Levantou-se as três da manhã com a cabeça fazendo estragos de dor no seu âmago. Muito intensa. Pensou ter sido a cerveja na hora do almoço do dia anterior ou então o sanduíche de calabresa no jantar. Para a cozinha foi. Água e analgésico, parada no banheiro e depois sofá da sala.

Sentou-se, relaxou por alguns instantes e logo sentiu a melhora do analgésico trabalhando. Acendeu o abajur e na penumbra viu o calendário da parede.

20 de novembro de 1946. Pegou a caneta e papel na mesa lateral, resolvendo escrever uma carta para a namorada Mariana. Haviam brigado por causa da fila do feijão. Em tempos do pós-guerra faltavam alimentos. Era fila para tudo. Principalmente para a compra de alimentos.

Na missiva pediu desculpas à moça por ter acordado tarde e o feijão que prometera comprar para ela havia acabado. No dia da briga na saída da boate ela furiosa pegou o chapéu dele  atirando-o ao chão e depois pisoteando. Feito isso limpou o carmim da boca no blazer novo dele. E foi embora pisando duro. Deixando-o ali parado na fria madrugada.

Também disse na carta que todos cometem erros e não precisava daquela violência contra seu chapéu e blazer. E que também ficou irritado com o show de patinha mimada que ela havia dado. Escreveu que a amava muito e estava com saudades.

Feito isso dobrou o papel deixando-o no móvel. Ia posta-lo pela manhã no correio da Avenida Princesa Izabel (RJ ) Perto da boate Vogue onde na saída aconteceu a briga.

Voltou para a cama. Acordou tarde ainda com a cabeça meio pesada. Sua esposa estava de mal humor. Sentou-se à mesa para o café. A esposa muito brava interpelou-o perguntado.

--- Quem é essa tal Mariana! Sua namorada por acaso!

Ele disse não saber, não conhecia nenhuma Mariana.

--- Você pensa que sou idiota Rodolfo! Ou está ficando louco!

--- Louca está você Miriam! Com essas perguntas idiotas. Não saio de casa sozinho desde que me aposentei. Não saio de casa sem você. Como é que eu poderia arrumar uma namorada!

--- Aliás a última vez que saímos juntos compramos meu blazer e o chapéu que eu tanto queria.

--- E esta carta senhor sem vergonha! Escrita com a sua letra! É para a sua Mariana meu bem. Disse ela com deboche.

Lendo a carta e assustado Rodolfo perguntou a mulher. 

--- Onde você achou isso Miriam?

--- Na sala! No seu cantinho predileto. Disse ela com desdém.

--- Meu Deus! Que dia é hoje!

--- 20 de novembro de 2.018 meu amor! Continuando com o deboche.

--- Meu Deus Miriam a letra é minha mas esta carta está datada de 20 de novembro de 1,946.

--- Você tem razão mulher quando diz que estou ficando maluco. E que estas dores de cabeça estão constantes. Amanhã mesmo estou indo ao médico.