27/10/2019

ESCRITORES E PERSONAGENS


 


Alguns escritores, quando criam um personagem levam em consideração o que sonharam por toda a vida e nunca conseguiram ter.
Uma mulher descrita como a deusa das deusas, um par de olhos verdes esmeraldas, a boca de biquinho que ao falar formavam duas covinhas nas bochechas vermelhas; os cabelos tinham um tom bem dourado e com milhões de fios de seda cacheados; o nariz fino e arrebitado fazia um curva harmoniosa na delicada face. Foi por essa mulher que o escritor se apaixonou e, como nunca a teve nos braços, deu-lhe vida no seu livro.

Sentado em sua cadeira predileta na varanda, olhava e olhava a paisagem, contemplava no tempo das imaginações a sua musa, um anjo sem asas a correr por entre as árvores e flores do seu fictício jardim.  

Levantou-se da cadeira e foi ao encontro do seu sonho, que já dominava os seus pensamentos como uma realidade. Puxou delicadamente a musa para si e abraçou seu corpo escultural, sentindo seus aromas de amor.

Suas bocas de encontraram, línguas rodopiaram, procurando o desejo e os sabores, as roupas voaram com o vento, colorindo o ar. A boca do escritor desvendou os segredos dos seios, mamilos e ventre da musa. Os suores se fizeram presentes; os beijos, os braços em massagem pelos corpos que caíram a rolar pela grama verde. Seus ventres colaram em ritmo alucinante, frenético.

Explode coração!

O suor do escritor se tornou gelado, sua respiração ofegante. Parecia cansado e com a boca seca, levantou-se da cadeira meio cambaleante. Entrou para a sala da casa. Sua esposa, sentada na cadeira de balanço, notou o abatimento do marido e disse-lhe em tom de alerta.

—Estás pálido de novo?  Melhor procurar um médico

21/10/2019

TERMINAL

 

Lá estava Marlos no terminal rodoviário. A vinte metros dele a mulher amada que fora seu amor num breve passado. Partia para Pontal da Cruz o lugar onde se criara.
Ele lembrou o dia em que ela chegara. Quando a viu vindo ao longe, parecia que levitava suavemente pelo chão. Um anjo sem asas vindo em sua direção.
Desembarcada do ônibus do destino. Em longa viagem desde os tempos da juventude. Quando todo o encanto do primeiro amor era a vida.
Hoje, porém, ela seu amor voltava ao paraíso. No pontal de uma cruz onde Marlos um dia fez um juramento de ama-la por todo o sempre.
Agora vê de longe e escondido, seu amor partindo de volta no mesmo ônibus do destino. Sua vontade é correr e abraça-la, para não deixa-la partir. Engoliu as lágrimas e continuou no seu esconderijo. Pensou consigo se ela o visse talvez fizesse uma viagem infeliz e doída.
Ele sabia que no Pontal seu amor. Sua namorada sua mulher. O pedaço da sua alma seria feliz. Rodeada de parentes e amigos.
Resignado e caindo em si baixou olhos em lágrimas e deu um adeus em pensamento. Viu a graciosidade do amor com seus passos de anjo subindo os degraus da partida.
Partiu triste do terminal esboçando um adeus bem baixinho com a boca chorosa. Seu coração bate forte e acelerado. Precisa de conserto. Quem sabe se depois de pronto e com o cérebro entendendo um pouco mais de amor Marlos saia do mundo dos sonhos. Curando as feridas do passado e volte a ter um grande amor.

Quem sabe o ônibus do destino aporte novamente no terminal trazendo seu anjo sem asas com uma nova maquiagem de amor. Aquele amor que o destino reservou para eles. Precisa se fechar em elos. Não deixando que a corrente se arrebente nunca mais. Quando o destino escreve, Deus não modifica.